EN PT ES

EL CAPITXN: O Filósofo do Som – Onde o Silêncio se Torna Fogo

AUTORA: VERA VON MONIKA

Há produtores que constroem som, e há produtores que esculpem espaço. EL CAPITXN - produtor sul-coreano, fundador do colectivo VENDORS e compositor por detrás de êxitos que atingiram o topo das tabelas com BTS, IU, PSY e novos nomes como AHOF - trabalha à escala global sem abdicar de uma autoria meticulosa.

Com EL CAPITXN, criar é menos construir e mais subtrair - decidir o que deve permanecer, o que deve arder e o que deve ficar por dizer.

O que emerge não é um retrato de reinvenção, mas de revelação. Ele rejeita o mito da transformação súbita, insistindo antes na visibilidade - na coragem de deixar de ocultar o que sempre existiu sob a superfície. No seu mundo, o silêncio transporta voltagem; a contenção tem força; o alinhamento é a única forma de confiança.

EL CAPITXN: O Filósofo do Som – Onde o Silêncio se Torna Fogo

Imagem cedida pela Vendors Production / CDM Entertainment

Ao longo desta conversa, EL CAPITXN desmonta a linguagem fácil do branding e substitui-a por algo mais exigente: sinceridade em vez de velocidade, clareza em vez de difusão, alinhamento em vez de conveniência. Esta não é uma entrevista sobre técnicas de produção. É sobre padrões, tensão e o custo da honestidade - e sobre um artista que acredita que, quando a música deixa de precisar de explicação, finalmente disse a verdade.

É frequentemente descrito como produtor, mas o seu trabalho revela uma assinatura emocional muito própria. Como define o seu papel no processo criativo? Onde começa e termina, para si, a autoria?

Nunca pensei conscientemente na minha música como possuindo uma assinatura emocional distinta, nem procurei criá-la de forma intencional. Há momentos na composição em que as considerações comerciais são inevitáveis e, nesses momentos, por vezes sinto que a essência da música em que acredito se dilui. Se os ouvintes ainda percebem essa clareza emocional, só posso estar grato. Vejo nisso um sinal de que permaneci fiel a mim próprio ao longo do caminho.

Não separo o meu papel de produtor do meu papel de compositor. O processo começa no instante em que decido o que deve permanecer e o que deve ficar em silêncio. E termina quando a música deixa de precisar da minha explicação.

Muitas das suas produções equilibram intensidade e contenção. É algo que molda de forma consciente ou surge naturalmente da forma como escuta o som e a emoção?

Não gosto de fronteiras difusas. Na vida e na emoção, prefiro clareza. Quando algo precisa de ser expresso, expresso-o claramente - quase como fogo. E quando algo deve ser aceite, posso tornar-me inesperadamente frio e silencioso. Talvez porque ambas as correntes coexistam em mim, aquilo que os outros percebem como equilíbrio surja de forma natural.

Trabalhou de perto com artistas profundamente envolvidos nas suas próprias narrativas. Como se transforma a colaboração quando o artista chega com uma narrativa interior forte, em comparação com alguém que ainda a procura?

Não permito facilmente que alguém imponha os seus padrões ao meu espaço criativo. Mas, se um artista está verdadeiramente focado na mudança, ajudo-o a concretizar essa transformação na sua plenitude. E se deseja continuar o caminho que já percorreu, ajudo-o a fazê-lo com maior nitidez e força.

No fundo, colaborar não é redireccionar o percurso de alguém - é afiar a verdade que essa pessoa já transporta.

O silêncio, o espaço e o ritmo parecem essenciais no seu trabalho. Quão importante é aquilo que decide não acrescentar a uma faixa, em comparação com o que acrescenta?

Sou ambicioso no sentido de querer expressar muitas coisas ao mesmo tempo. Por vezes sinto o impulso de colocar tudo na música. Mas esse é o meu desejo, não necessariamente aquilo que o ouvinte consegue absorver. Mesmo captar uma única mensagem central já não é tarefa simples.

Por isso, reflito constantemente sobre o que remover, mais do que sobre o que acrescentar. Em vez de enumerar múltiplas mensagens, procuro aprofundar um único centro. O que permanece é definido pelo que foi retirado. O silêncio não é vazio. É tensão, memória e respiração.

Por vezes, escolher não acrescentar nada é a decisão mais emocional de todas.

O seu estilo pessoal, tanto visual como sonoro, parece profundamente intencional. Como entende o estilo como parte da sua identidade criativa? Influencia a forma como aborda a música ou a colaboração?

No último ano, a pergunta que mais ouvi foi: “Porque mudou de repente?”, mas quero questionar essa premissa. Será realmente assim tão fácil alguém parecer completamente diferente de um dia para o outro? Ou será apenas que algo, durante muito tempo oculto, finalmente se tornou visível?

A certa altura, decidi deixar de me esconder. Acredito que é preciso respeitar-se e amar-se genuinamente para ter a coragem de revelar quem se é. Já não escolho permanecer dentro da imagem que os outros esperam de mim. O que as pessoas vêem agora não é transformação. Está mais próximo de quem sempre fui.

O estilo não é decoração. É o resultado exterior de decisões invisíveis. Som, imagem e movimento devem nascer da mesma fonte emocional. Caso contrário, tudo permanece superficial.

Numa era em que a música é consumida rapidamente, como pensa a longevidade - não apenas de uma canção, mas de uma voz artística?

Acredito que a arte nasce, em última instância, da sinceridade. Tal como ninguém pode ser enganado eternamente por palavras vazias, um único sentimento ou frase sincera pode fazer este mundo duro voltar a parecer digno de ser vivido. Move as pessoas.

Acredito que esse tipo de verdade perdura para além do próprio tempo.

A colaboração exige confiança. O que o faz sentir-se criativamente seguro com um artista? E o que perturba imediatamente esse processo?

Esta pergunta continua a ser, para mim, um exercício em aberto. A segurança criativa começa quando nenhuma das partes esconde a sua vulnerabilidade. No momento em que proteger uma imagem se torna mais importante do que dizer a verdade, o processo começa a ruir. A música não sobrevive onde a honestidade desaparece.

Colaborar não é simplesmente trabalhar em conjunto. Exige um alinhamento completo da direcção emocional antes de começar. Num mundo em que é difícil fazer escolhas que agradem a todos, esse alinhamento torna-se ainda mais exigente. Mas é precisamente por isso que tem de ser alcançado.

A tecnologia está a transformar a produção musical a um ritmo acelerado. Como mantém a autenticidade emocional quando as ferramentas se tornam cada vez mais automatizadas?

Não acredito que a tecnologia, por si só, ameace a emoção. O verdadeiro problema é o distanciamento emocional. À medida que as ferramentas se tornam mais automatizadas, procuro perguntar com maior frequência: porque é que isto precisa de ser sentido?

Para mim, a tecnologia não deve afastar-nos da emoção, mas aproximar-nos dela. Não sou alguém que resista à mudança por teimosia - procuro antes compreender o fluxo. Em vez de lutar contra a corrente, procuro a direcção que me permita ir mais longe e mais alto dentro dela. Se o progresso tecnológico faz parte desse caminho, não é algo a rejeitar, mas uma linguagem a aprender. É assim que VENDORS também opera.

No entanto, se alguém não conseguir incorporar sinceridade na música desde o início, não dominará a tecnologia - será dominado por ela. Não conseguimos ultrapassar fisicamente a velocidade da inovação. Se há um padrão que permanece no fim, acredito que é o coração humano.

Olhando em frente, que projectos ou territórios emocionais sente maior curiosidade em explorar, mesmo que escapem às expectativas?

Sinto-me continuamente atraído por territórios emocionais por resolver - espaços entre crença e dúvida, beleza e destruição, silêncio e confissão. Não porque sejam sombrios, mas porque são profundamente humanos. A minha próxima história começa sempre aí.

Durante muito tempo, vivi escondido, observando o meu próprio colapso como se fosse apenas espectador. Mas já não quero esconder-me neste mundo.

EL CAPITXN tem resistido em silêncio durante muito tempo. Sinto que esse período está finalmente a chegar ao fim.

Instagram @vera.von.monika X @veravonmonika Ameba Ameba